A Primeira Grande Guerra foi uma explosão que dilacerou a comunidade dos países europeus. Os heimatlossen ou apátridas e as minorias, como corolários às guerrascivis e migrações, perderam os direitos antes inalienáveis, isto é, os Direitos do Homem. Os efeitos da guerra, a fome e a penúria subseqüente, a mudança da carta política da Europa, o desemprego e a inflação, foram causas substanciais para a retomada do fluxo migratório para fora do Velho Mundo.5
A vida para muitos judeus na Europa, após a Primeira Guerra Mundial, tornou-se incompatível com suas perspectivas de vida e ideário humanos. Pressionados econômica, política e moralmente, desnacionalizados, sem perspectivas, puseram-se a abandonar o velho continente. Entretanto, a maioria procurava, desde o século XIX, emigrar para os Estados Unidos. Este grande pólo de atração, contudo, ofereceu dificuldades, quando a votação da lei em 1921, fixou o número dos imigrantes: 3% de cada nacionalidade que habitava em 1910.6 Restavam assim, no Novo Mundo, o Canadá, a Argentina e o remoto e pouco conhecido Brasil. Aqui vigoravam, a partir da Lei de Imigração de 1919, os tipos de visto de estada permanente, o que possibilitava uma ocupação e subsistência em pouco tempo.
O foco desta pesquisa é a presença de judeus com vida comunitária, identidade cultural e religiosa próprias – diferente do contexto maior.
Um anúncio, em 1912, da joalheria de Jacob Grunfeld, talvez um dos primeiros, confirma a crônica oral,7 e a informação da Enciclopédia Judaica, assinala este como o ano da chegada dos primeiros imigrantes, estimando em vinte, as famílias residentes em 1914, ano em que se organiza a primeira entidade, a Tiferet Sion, de caráter cultural. Um antigo imigrante, que chegou a Salvador em 1914, conta que já encontrou judeus, além dos polacos (ligados ao meretrício estrangeiro), com os quais não se misturavam e, por isso, a população os chamava de russos.8 Em 1916, no jornal O Democrata, encontramos divulgação de três negociantes, no ramo de mobiliários e quadros. Nessa mesma época, ambulantes começaram a percorrer os bairros mais afastados de Salvador e eram confundidos com os árabes e turcos que migraram em maior número. A revista Columna, fundada pelo professor David J.Perez, em 1917 registrou a importância de 117$(réis), enviada para as vítimas da guerra, e os cumprimentos recíprocos entre residentes de Salvador e Rio de Janeiro.9
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Salvador possuía em 1917 duzentos e setenta e um mil e quatrocentos habitantes. Levine estima que, em 1917, havia no Brasil em torno de sete mil judeus. As restrições da Constituição de 1934 à imigração, reduziram drásticamente as cotas de judeus que fugiam do nazismo.10 A Constituição de 37 confirma as instruções anteriores.
Após o término da Primeira Grande Guerra a imigração se intensifica. A carência de cifras não impede de examinar, à luz de relatos, entrevistas, depoimentos e pesquisa em jornais, como começou a pulsar essa pequena comunidade. Através de levantamento nominal, chegamos a um número estimado de famílias judias que residiram no Estado da Bahia, entre 1912 e 1945: ashquenazitas: 315, sefarditas 24.
O maior número concentrava-se em Salvador; os judeus do interior estavam dispersos em vários municípios: Ilhéus, Itabuna, Cahoeira, Juazeiro, Feira de Santana, Bonfim e Alagoinhas eram os principais. No semanário Dos idishe vochenblat (03/02/26), o sr. L.Cenker relata uma assembléia para discutir compra de terreno destinado ao cemitério comunal, pois a colônia contava com quinhentas pessoas. Em novembro de 1929, o Diário de Notícias comenta a visita do sr. J. A. Ettinger, dirigente do Jewish National Fund, que informava: “As colônias maiores são do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Pernambuco tem trezentas famílias e aqui temos umas cento e vinte”. É necessário notar, contudo, que a mobilidade dessa comunidade é permanente, fazendo com que sua população tenha dados extremamente flutuantes. Em 1921, o sr. Leão Bloch já se despedia pela imprensa, indo para o sul.
O censo de 01/09/1940, realizado pelo I.B.G.E., oferece-nos dados oficiais: observamos a presença de judeus no Estado da Bahia, em 39 (trinta e nove) municípios, num total de 956 (novecentos e cinqüenta e seis) pessoas.11 Havia uma forte concentração urbana, sobretudo na capital Salvador, seguida de Ilhéus e Itabuna. Como comparação temos 1920 judeus no Rio de Janeiro e 19.743 no antigo Distrito Federal.
#VejaIsrael_BneiAnussim
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