No Nordeste Brasileiro, quanto
mais elevada é a classe a que uma criança do sexo masculino pertence, mais
rigorosa é a sua criação na preparação e capacitação para a vida. Muitos eram
os nobres que começavam a pensar que as crianças masculinas deviam ter uma vida
menos severa, mas, os meus avós e pais não eram dessa opinião, queriam porque
queriam que todos nós filhos e filhas fossem educados com rigores e disciplinas
edificadoras. As atitudes dos meus avós e pais resumiam-se mais ou menos assim:
uma criança pobre não podia esperar qualquer conforto mais tarde, portanto,
devíamos ter com ele bondade e consideração enquanto era novo, entretanto, uma criança
da classe mais abastada teria toda a espécie de conforto e riquezas quando
crescesse e, por isso, devia ser tratado com aspereza durante a infância e a
adolescência para que adquirisse experiência das agruras da vida e tivesse
respeito e consideração pelos outros, se tornando conscientemente um ser leal,
honesto, amigo, respeitador, trabalhador, justo e fiel aos seus princípios.
Essa era, portanto, também a atitude oficial dos meus avós e país, que sob esse
sistema, os meus irmãos e primos que eram considerados fracos não resistiam, entretanto,
os que sobreviviam estavam preparados para todas as eventualidades da vida,
assim como eu sobrevivi.
Na sua qualidade de guarda-costas,
o senhor Santinho convivera durante muitos e muitos anos com gente de todas as
espécies e era muito difícil de suportar a sua vida de recluso, dentro de
quatro paredes, longe de tudo e de todos, protegendo aos príncipes e princesas
membros da dinastia Rocha/Freire. Vivíamos próximos das cocheiras, onde meus
avós e pais guardavam os cavalos quatro de milha, os animais de trabalho e logo
mais em frente o canil, onde tínhamos mais de 40 cães de guarda e caça.
Todos os nossos empregados que
cuidavam das cocheiras e canil, tinham um ódio mortal a seu Santinho, porque
ele era implicante e gostava de interferir nos seus trabalhos, não admitindo
falhas ou irresponsabilidades. Quando meus avós e pais saíam a cavalo, tinham
de levar uma escolta de cerca de seis homens armados, onde esses homens usavam
uniformes das empresas e andavam sempre a observar as pessoas que passavam para
lá e para cá, para se certificar de que todo o equipamento estava em perfeita
ordem e que não corríamos perigo algum.
Por motivo que desconheço, esses
homens armados costumavam levar os cavalos até junto da parede e depois, quando
os meus avós e pais apareciam, já montados, esses homens armados atiravam-se
para a frente a galope ao encontro deles. Certo dia, nada tendo que fazer, mim
organizei todo, calça jeans, botas, camisa e chapéu, passei cuidadosamente uma
corda fina e forte pelo cinturão de couro, enquanto isso ajeitava os arreios do
cavalo, fiz um laço com as duas extremidades da corda e passei-a por um gancho
que havia no canto da janela que dava acesso as cocheiras. Já no meio da actividade
que havia no pátio com todos aqueles cavaleiros, ninguém reparou em mim
observar, meus avós e meus pais apareceram e os cavaleiros galoparam ao
encontro deles. O cinturão de um dos cavaleiros armados se quebrou com o excesso
de peso e na confusão que se estabeleceu o cavaleiro meio que envergonhado consegui
puxar a corda e desaparecer sem ser visto. Todas essas coisas eram mais que
suficientes para me divertir.
O que mais me chamava a atenção,
é que, apesar de participarmos de uma dinastia e casta superior, rica,
dominadora, esclarecemos que os nossos dias não eram fáceis, eram difíceis, estávamos
de pé cerca dezoito horas por dia em trabalho, estudo e lazer. Os Nordestinos
supõem que têm que aproveitar o máximo de tempo em estudo e serviço, pois
reconhecem que não é bom dormir quando há luz do dia, isso porque os espíritos
da noite podem se sobrepor ao dia podendo vir e levar as pessoas adormecidas
preguiçosamente, mesmo os que estão adoentados têm de permanecer o máximo de
tempo acordados durante o dia, e para isso chama-se um sacerdote que passa a
maior parte do tempo rezando e lendo a Torá. Ninguém pode ou deve ser poupado
de estudo ou trabalho na dinastia Rocha/Freire, até os moribundos que vão pedir
comida e água fresca sempre tem alguma coisa que aprender ou fazer, mesmo
porque, toda essa cultura de ocupação de tempo com coisas proveitosas têm de
ser conservada conscientemente tanto quanto possível para que todos saibam qual
é a estrada a seguir através das regiões fronteiriças do outro mundo dalém do
Nordeste.
Na nossa casa, que mais parecia
uma verdadeira escola, todos nós independente de idade aprendíamos gramática,
língua portuguesa, matemática, aritimética, física, geometria, bem como arte de
pintar, esculpir, compor, carpintaria, marcenaria. Os Nordestinos têm suas
formas diferentes de tratarem as coisas, comum e honorífica, pois sempre surgem
preocupações de como honrarmos que devidamente merece ser honrado. Assim sendo,
reconhecemos que as coisas comuns usam-se quando falamos com os criados ou
pessoas de condição sociais inferiores às nossas, e a honorífica, quando tratamos
com pessoas da mesma classe social, assim quando falamos com o cavaleiro de uma
classe social elevada temos de utilizar o estilo honorífico do seu senhor, o
que, não podemos e não devemos esquecer, de que quando, os nossos aristocratas
atravessam o pátio, pé ante pé, entre os seus assuntos privados, jamais seria
interrompido por um criado nos seguintes termos, e quando era interrompido por
algo superior dirigir-se-á da seguinte forma: "Dignar-se-á o ilustre
senhor a interromper o seu passeio e ouvir o que este seu humilde servo tem a
dizer?".
A nossa casa era rigorosamente
grande, tendo várias salas de estudos que por sinal eram bastante grandes, que
a tempos antigos tinham sido usadas para refeitórios dos sacerdotes que nos
visitavam, mas, desde que as obras tinham acabado, aquelas salas foram
destinadas as salas de aulas para todas as crianças da propriedade, senhores e
servos. Éramos ao todo uns cento e trinta, e sentávamos em cadeiras conjugadas,
de dois em dois, em frente a uma enorme mesa de escrivania, ou melhor, a uma
bancada que tinha cerca de um metro e vinte centímetros de altura.
Sentávamo-nos de costas para a rua e de frente para o quadro negro e para o mestre
para sabermos quando ele estava olhando para nós, e assim tínhamos de estar
sempre estudando e executando os trabalhos determinados pelo mestre.
A aritmética, geometria, física,
matemática, química, biologia, geografia, história, educação moral e cívica não
me aborreciam, porém, mortalmente me aborreciam os tantos e quantos políticos
aproveitadores que exploravam sarcasticamente toda aquela gente indefesa. Mais
de setecentas pessoas comiam e bebiam diariamente em nossa casa, sendo as três
refeições principais e as duas refeições intermediárias, e cada qual devia se
preocupar com a capacidade da vasilha para conservar a quantidade necessária
para uma boa e nutritiva refeição, isso porque, cada um era servido de acordo
com sua capacidade de comer e beber.
Não podemos e não devemos
esquecer de que todos nós tínhamos que trabalhar independente da idade, sendo
uns na madeira, confesso que ninguém me levava a melhor, pois eu tinha muita
habilidade para tratar com a madeira, mesmo porque, eu considerava que
trabalhar com a madeira era um trabalho de que eu gostava e em que era bastante
hábil. A madeira de lei no Nordeste é muito cara porque tem de ser transportada
de outras partes e regiões do Brasil.
Uma das lições diárias que nunca
se dispensavam era a recitação das leis da Torá, isso porque, tínhamos de as
recitar logo que entrávamos nas salas de aulas, e outra vez antes de sairmos,
além da Torá, tínhamos também as leis adicionais que eram as seguintes:
Paga sempre o bem com o bem e
nunca com o mal;
Não brigar ou causar danos com as
pessoas pacíficas;
Ler as Escrituras Sagradas, Torá
e se esforçar o máximo para compreende-las;
Ajuda incondicionalmente os nossos
semelhantes, principalmente os menos favorecidos;
Paga as dívidas com pontualidade
e evitar sempre tomar emprestado;
Melhor ter para dar e emprestar
do que pedir emprestado.
Nossos avós e pais eram rígidos
quanto as Leis da Torá e aas adicionais que, para que não houvesse
possibilidade de as esquecer, essas leis estavam gravadas em placas e fixadas em
todas as paredes dos quartos, salas, corredores, portões principais e secundários.
As nossas vidas, porém, não eram só estudos e canseiras, pois todos nós
indistintamente brincávamos todos os dias, quase tanto quanto estudávamos, e
também trabalhávamos aprendendo sempre uma arte ou uma profissão, pois meus
avós e pais, não permitiam que ficássemos sem uma profissão, mesmo nós fazendo
parte da dinastia Rocha/freire. Todos os nossos jogos que praticávamos tendiam
a enrijar-nos cada vez mais e a preparar-nos para sobrevivermos as durezas climáticas
Nordestina, com as suas temperaturas rigorosamente altas, escaldantes, em pleno
verão, ao meio dia a temperatura chega a ser superior aos 45 graus, e no
inverno, é às vezes a temperatura chegava aos 6 graus, o que era considerado
frio por demais.
Aprendíamos a disparar com arcos
e flechas, badoques, baleadeiras, espingardas, o que além de ser imensamente
divertido contribuía para nos desenvolver os músculos e as nossas mentes.
Usávamos arcos feitos de madeira que nós mesmos colhíamos nas nossas matas, e
às vezes fazíamos com madeira local, o que não ficavam bons, mas, dava-se um
jeito. Como todos na dinastia Rocha/Freire éramos judeus não praticantes, ou
seja, não éramos religiosos, seguíamos os infalíveis ensinamentos da Torá, mas,
não tínhamos dogmas, nunca disparávamos sobre alvos vivos que não fossem
comestíveis.
Quando treinávamos em casa, os
nossos criados ficavam escondidos em determinados lugares, e faziam os alvos
subir ou descer por meio de longas cordas e nós dificilmente sabíamos em que
direcção os alvos se iam mover, e a maior parte dos rapazes podia atirar
mantendo-se de pé nas selas dos cavalos lançados a galope mais a passos
rápidos. Mas eu sempre conseguia-me manter montado o tempo suficiente, nas
provas de salto, tambor, baliza, porém, não havia cavalo para preocupar-me,
isso porque, corríamos tão depressa quanto podíamos e quando a velocidade era
suficiente saltávamos apoiando-nos ao chão sem nos causar danos. Eu costumava
dizer que os meus irmãos, primos e empregados andavam pouco tempo a cavalo que
não tinham força nas pernas, mas eu, que tinha de usar as pernas, montava todos
os dias uma média de hora e meia, então eu podia de fato pular do cavalo sem
causar dano algum e mim mesmo. Montar a cavalo era, portanto, para todos nós um
sistema excelente para atravessar os rios e eu ficava muito satisfeito ao ver
aqueles que tentavam seguir-me mergulharem um atrás do outro sem dominar os
seus cavalos, e quando atravessávamos todos queriam saber os mistérios pelos
quais eu dominava bem o meu cavalo e eles não.
Outro dos nossos passatempos
eram as andas, onde nós costumávamos mascarar-nos e brincar de gigantes e às
vezes organizávamos combates em andas sem que ninguém soubesse quem era quem, e
aquele que caía era considerado vencido, assim, as nossas andas eram feitas por
nós mesmos, tínhamos de usar todo o nosso poder de persuasão sobre o fiel senhor
do armazém que geralmente era o próprio administrador geral, ou seja, o meu avô
paterno, de forma que para podermos obter as peças de madeira de que
precisávamos tínhamos que saber como e quando ir buscar. O nosso avô paterno
tinha de saber de que forma e uso iríamos utilizar as peças, se apropriados estávamos
isentos de interrogatórios, caso contrário, motivo para uns ensinamentos
confidenciais, onde, geralmente depois era preciso obter os pedaços em forma de
cunha para os suportes dos pés, e como a madeira era muito escassa para ser
desperdiçada, tínhamos de esperar a melhor oportunidade junto ao meu avô
paterno para fazer o pedido delicadamente e seriamente.
As meninas brincavam com peteca,
bambolês, saltar cordas, onde elas mesmas confeccionavam seus brinquedos sob
orientação de uma de nossas governantas que também era a guarda-costas das
meninas. Assim juntas pegavam pequenos pedaços de madeiras perfuravam numa das
bordas e nesses orifícios colocavam as penas dos patos selvagens para
confeccionar as petecas, assim, as meninas levantavam as saias o suficiente
para as pernas terem liberdade de movimentos e corriam para um alado e para o
outro para de maneira segura manter a peteca no ar, sem que a peteca tocasse o
chão, se deixassem a peteca cair no chão ficavam desclassificadas, o que, para
surpresa nossa, tinha uma menina vigorosa filha de uma de nossas empregadas que
era que mais mantinha a peteca no ar às vezes durante uns dez minutos antes de
falhar um toque sequer.
Merece lembrar que o maior
interesse nosso onde morávamos no Nordeste, era equitação, montarias, domas de
cavalos, tratamento de gados, lançamento de papagaios, corridas de saco, futebol
de campo e quadra, ténis, era tudo a esse que podemos chamar de diversão, podíamos
utilizar cada um de acordo com as estações do ano. Desde tempos remotos, os
mais velhos diziam que se lançássemos papagaios nas montanhas as chuvas caía em
torrentes, e nesses tempos acreditavam-se que as chuvas ficavam zangadas se não
as buscássemos, por isso mesmo, que lançávamos os papagaios principalmente na estação
seca, isso porque, no Nordeste temos duas estações seca e chuva. Em épocas de
trovoadas, onde caem as chuvas fortes, não se grita nas montanhas porque a
percussão ou eco das vozes leva as nuvens saturadas da água a liquefazerem-se
demasiadamente depressa e a provocarem chuvas as menos convenientes. Devemos
atentar para a grandeza que tínhamos quando soltávamos os nossos papagaios, em
que dentro de poucos minutos, papagaios de todos os feitios, tamanhos e cores
aparecem sobre os telhados das casas, campo de futebol, estradas, arruamentos, flutuando
para cima e para baixo, agitados pelas fortes brisas.
Eu, meus irmãos, primos e
funcionários gostávamos imensamente de soltar papagaios e esforçava-me para que
o meu fosse um dos primeiros a subir ao céu, isso porque, tínhamos o privilégio
de estarmos numa área privilegiada de ventos e com vastos gramados, onde podíamos
correr a vontade para um para e para outro. Nós mesmos que construíamos os
nossos papagaios, geralmente, com uma armação de bambu coberta de papel
manteiga ou seda, o que não nos era difícil obter materiais de boa qualidade,
porque era um ponto de honra para cada lar apresentar um papagaio da mais alta
classe, habitualmente adornávamos os nossos papagaios com ferozes dragões, águias,
aves com asas e caudas.
Tínhamos sempre o costume de travarmos
batalhas, nas quais tentávamos derrubar os papagaios dos nossos rivais, onde
fazíamos o nosso cerol, em que prendíamos pó de vidro à cauda dos papagaios e
cobríamos a linha com cola misturada com o pó de vidro muito bem moído na
esperança de cortar as linhas dos outros e capturar os papagaios que caíssem em
nosso terreno.
Às vezes, saíamos cautelosamente
nas noites de luas claras como o sol e fazíamos subir os nossos papagaios, que
mais valiam de consolos para dentro das nossas cabeças e corações, em que, desse
modo, os nossos olhos adquiriam brilhos avermelhados e os corpos mostravam as
suas cores diferentes contra o fundo do céu nocturno claro com a lua, o que,
todos nós gostávamos de assim proceder principalmente quando esperávamos as
caravanas de devotos, romeiros, religiosos e vaqueiros que vinham de todos os
distritos, comunidades, fazendas.
Não podemos esquecer de que em
nossa inocência de crianças, pensávamos que os camponeses, lavradores,
vaqueiros eram ignorantes por serem analfabetos, isso porque, vinham desses
lugares longínquos e muitos deles desconheciam a existência de invenções modernas
como os aviões, veículos, motocicletas, máquinas e equipamentos pesados, indústrias,
e julgávamos que os nossos papagaios, e por isso só assustaria os nossos
visitantes.
Costumávamos colocar conchas de diferentes
tamanhos e formatos em posições estratégicas dentro dos papagaios, de forma que
quando o vento soprava sobre os nossos papagaios iam de encontro das conchas e produziam
sons queixosos, melancólicos que nós chamávamos de sons fantasmagóricos, isso
porque, em nossas inocências de crianças, pensávamos que os sons se assemelhavam
assim aos sons dos dragões que expeliam fogo e ululavam na noite, então, nós
esperávamos também, assim assustar ainda mais os nossos visitantes que vinham
as dezenas em suas caravanas. Confesso que eu mesmo, muita das vezes sentia arrepios
de contentamento ao longo da espinha ao imaginar aqueles homens enrolados em suas
capas e cobertores, aterrorizados, enquanto os nossos papagaios pairavam por
cima das suas cabeças e causando espantos aos cavalos e provocando os latidos
ferozes dos seus cachorros sem raça defina.
As minhas brincadeiras com
papagaios haviam de me ser muito úteis mais tarde, quando me vi obrigado a voar
de avião pela primeira vez, foi quando eu me sentia em um neles, naquele tempo,
os nossos papagaios não passavam de brincadeiras, mas de uma brincadeira que me
entusiasmava muito, ao ponto de eu não sofrer nenhum medo quando tive que voar
de avião pela primeira vez. Tínhamos a sensação de que podíamos construir
grandes papagaios como se fossem aparelhos enormes com cerca de dois metros e
meio ou três metros de comprimento e largura e com asas proporcionais em ambos
os lados, e sabiamente colocávamos em posições de voarem em nosso terreno que
muito plano próximo ao rio onde havia uma corrente de ar vertical
particularmente forte o que nos favorecia soltar os nossos gigantes objectos voadores.
Montávamos nos nossos cavalos
com uma das extremidades da corda atada à volta da cintura e depois galopávamos
tão depressa quanto os cavalos podiam galopar, saltava o papagaio que ia
subindo, subindo, e mais e mais até ser apanhado pela corrente de ar, quando,
então, éramos arrancado da sela com um puxão, pairava a uns dez metros do chão
e vínhamos descendo lentamente e para tanto, era uma das maiores e melhores
aventuras. Alguns, dos meus irmãos, primos e funcionários se esqueciam de tirar
os pés dos estribos, e com os solavancos dos papagaios gigantes eram
violentamente puxados pela cintura, o que causava alguns ferimentos pela corda
amarrada nas suas cinturas, entretanto eu, que de qualquer maneira eu era considerado
por todos como um grande cavaleiro, então deixava-me cair, e era um prazer
deixar-me levar pelo ar e voar, voar, voar. Devemos esclarecer que, sendo eu,
por temperamento, de natureza insensatamente aventureiro, descobri muito cedo que,
se no momento da subida desse, um certo puxão à corda, podia subir ainda mais
alto e com outros puxões judiciosos nos momentos propícios eu, podia prolongar ainda
mais e mais o meu voo durante mais alguns segundinhos que parecia uma
eternidade.
Em uma determinada ocasião eu puxei
as cordas com mais entusiasmo, e neste momento o vento cooperou mais ainda, e
fui levado para o telhado horizontal da casa de um de nossos camponeses, onde
estava armazenado no depósito vizinho todo o nosso combustível para o inverno.
A maioria das casas dos nossos camponeses
Nordestinos são casas com telhados planos, circundados por um pequeno
parapeito, e aí conservam as carnes e queijos ao sol e ao sereno da noite,
apurando e dando maior potencial de conservação. Estas casas, particularmente,
eram construídas de tijolos de barro em vez de enchimentos, que é mais usual, e
eram poucas as casas que tinham chaminés, a fumaça do fogão a lenha escapava
através de um buraco aberto na parede da cozinha ou no telhado por canos
improvisados. A minha chegada súbita na ponta de uma corda desmanchou o arranjo
do estrume e, ao ser arrastado pelo vento, varri com o meu corpo a maior parte
do combustível, que tombou pelo buraco sobre os pobres camponeses.