Do blog;

“Este é o meu espaço cibernético, onde pretendo postar temas relacionados com o amor e as grandezas de Deus, com a música, sobremodo com o estilo que é a minha paixão, o sertanejo de raiz; quero postar ainda sobre o amor entre homem e mulher, entre outros, e enfim, o tema aqui será aquele que for o tema do meu momento atual".

Dedico este espaço aos meus amores (família) e aos meus poucos e verdadeiros amigos.

domingo, 22 de julho de 2018


No Nordeste Brasileiro, quanto mais elevada é a classe a que uma criança do sexo masculino pertence, mais rigorosa é a sua criação na preparação e capacitação para a vida. Muitos eram os nobres que começavam a pensar que as crianças masculinas deviam ter uma vida menos severa, mas, os meus avós e pais não eram dessa opinião, queriam porque queriam que todos nós filhos e filhas fossem educados com rigores e disciplinas edificadoras. As atitudes dos meus avós e pais resumiam-se mais ou menos assim: uma criança pobre não podia esperar qualquer conforto mais tarde, portanto, devíamos ter com ele bondade e consideração enquanto era novo, entretanto, uma criança da classe mais abastada teria toda a espécie de conforto e riquezas quando crescesse e, por isso, devia ser tratado com aspereza durante a infância e a adolescência para que adquirisse experiência das agruras da vida e tivesse respeito e consideração pelos outros, se tornando conscientemente um ser leal, honesto, amigo, respeitador, trabalhador, justo e fiel aos seus princípios. Essa era, portanto, também a atitude oficial dos meus avós e país, que sob esse sistema, os meus irmãos e primos que eram considerados fracos não resistiam, entretanto, os que sobreviviam estavam preparados para todas as eventualidades da vida, assim como eu sobrevivi.
Na sua qualidade de guarda-costas, o senhor Santinho convivera durante muitos e muitos anos com gente de todas as espécies e era muito difícil de suportar a sua vida de recluso, dentro de quatro paredes, longe de tudo e de todos, protegendo aos príncipes e princesas membros da dinastia Rocha/Freire. Vivíamos próximos das cocheiras, onde meus avós e pais guardavam os cavalos quatro de milha, os animais de trabalho e logo mais em frente o canil, onde tínhamos mais de 40 cães de guarda e caça.
Todos os nossos empregados que cuidavam das cocheiras e canil, tinham um ódio mortal a seu Santinho, porque ele era implicante e gostava de interferir nos seus trabalhos, não admitindo falhas ou irresponsabilidades. Quando meus avós e pais saíam a cavalo, tinham de levar uma escolta de cerca de seis homens armados, onde esses homens usavam uniformes das empresas e andavam sempre a observar as pessoas que passavam para lá e para cá, para se certificar de que todo o equipamento estava em perfeita ordem e que não corríamos perigo algum.
Por motivo que desconheço, esses homens armados costumavam levar os cavalos até junto da parede e depois, quando os meus avós e pais apareciam, já montados, esses homens armados atiravam-se para a frente a galope ao encontro deles. Certo dia, nada tendo que fazer, mim organizei todo, calça jeans, botas, camisa e chapéu, passei cuidadosamente uma corda fina e forte pelo cinturão de couro, enquanto isso ajeitava os arreios do cavalo, fiz um laço com as duas extremidades da corda e passei-a por um gancho que havia no canto da janela que dava acesso as cocheiras. Já no meio da actividade que havia no pátio com todos aqueles cavaleiros, ninguém reparou em mim observar, meus avós e meus pais apareceram e os cavaleiros galoparam ao encontro deles. O cinturão de um dos cavaleiros armados se quebrou com o excesso de peso e na confusão que se estabeleceu o cavaleiro meio que envergonhado consegui puxar a corda e desaparecer sem ser visto. Todas essas coisas eram mais que suficientes para me divertir.
O que mais me chamava a atenção, é que, apesar de participarmos de uma dinastia e casta superior, rica, dominadora, esclarecemos que os nossos dias não eram fáceis, eram difíceis, estávamos de pé cerca dezoito horas por dia em trabalho, estudo e lazer. Os Nordestinos supõem que têm que aproveitar o máximo de tempo em estudo e serviço, pois reconhecem que não é bom dormir quando há luz do dia, isso porque os espíritos da noite podem se sobrepor ao dia podendo vir e levar as pessoas adormecidas preguiçosamente, mesmo os que estão adoentados têm de permanecer o máximo de tempo acordados durante o dia, e para isso chama-se um sacerdote que passa a maior parte do tempo rezando e lendo a Torá. Ninguém pode ou deve ser poupado de estudo ou trabalho na dinastia Rocha/Freire, até os moribundos que vão pedir comida e água fresca sempre tem alguma coisa que aprender ou fazer, mesmo porque, toda essa cultura de ocupação de tempo com coisas proveitosas têm de ser conservada conscientemente tanto quanto possível para que todos saibam qual é a estrada a seguir através das regiões fronteiriças do outro mundo dalém do Nordeste.
Na nossa casa, que mais parecia uma verdadeira escola, todos nós independente de idade aprendíamos gramática, língua portuguesa, matemática, aritimética, física, geometria, bem como arte de pintar, esculpir, compor, carpintaria, marcenaria. Os Nordestinos têm suas formas diferentes de tratarem as coisas, comum e honorífica, pois sempre surgem preocupações de como honrarmos que devidamente merece ser honrado. Assim sendo, reconhecemos que as coisas comuns usam-se quando falamos com os criados ou pessoas de condição sociais inferiores às nossas, e a honorífica, quando tratamos com pessoas da mesma classe social, assim quando falamos com o cavaleiro de uma classe social elevada temos de utilizar o estilo honorífico do seu senhor, o que, não podemos e não devemos esquecer, de que quando, os nossos aristocratas atravessam o pátio, pé ante pé, entre os seus assuntos privados, jamais seria interrompido por um criado nos seguintes termos, e quando era interrompido por algo superior dirigir-se-á da seguinte forma: "Dignar-se-á o ilustre senhor a interromper o seu passeio e ouvir o que este seu humilde servo tem a dizer?".
A nossa casa era rigorosamente grande, tendo várias salas de estudos que por sinal eram bastante grandes, que a tempos antigos tinham sido usadas para refeitórios dos sacerdotes que nos visitavam, mas, desde que as obras tinham acabado, aquelas salas foram destinadas as salas de aulas para todas as crianças da propriedade, senhores e servos. Éramos ao todo uns cento e trinta, e sentávamos em cadeiras conjugadas, de dois em dois, em frente a uma enorme mesa de escrivania, ou melhor, a uma bancada que tinha cerca de um metro e vinte centímetros de altura. Sentávamo-nos de costas para a rua e de frente para o quadro negro e para o mestre para sabermos quando ele estava olhando para nós, e assim tínhamos de estar sempre estudando e executando os trabalhos determinados pelo mestre.
A aritmética, geometria, física, matemática, química, biologia, geografia, história, educação moral e cívica não me aborreciam, porém, mortalmente me aborreciam os tantos e quantos políticos aproveitadores que exploravam sarcasticamente toda aquela gente indefesa. Mais de setecentas pessoas comiam e bebiam diariamente em nossa casa, sendo as três refeições principais e as duas refeições intermediárias, e cada qual devia se preocupar com a capacidade da vasilha para conservar a quantidade necessária para uma boa e nutritiva refeição, isso porque, cada um era servido de acordo com sua capacidade de comer e beber.
Não podemos e não devemos esquecer de que todos nós tínhamos que trabalhar independente da idade, sendo uns na madeira, confesso que ninguém me levava a melhor, pois eu tinha muita habilidade para tratar com a madeira, mesmo porque, eu considerava que trabalhar com a madeira era um trabalho de que eu gostava e em que era bastante hábil. A madeira de lei no Nordeste é muito cara porque tem de ser transportada de outras partes e regiões do Brasil.
Uma das lições diárias que nunca se dispensavam era a recitação das leis da Torá, isso porque, tínhamos de as recitar logo que entrávamos nas salas de aulas, e outra vez antes de sairmos, além da Torá, tínhamos também as leis adicionais que eram as seguintes:
Paga sempre o bem com o bem e nunca com o mal;
Não brigar ou causar danos com as pessoas pacíficas;
Ler as Escrituras Sagradas, Torá e se esforçar o máximo para compreende-las;
Ajuda incondicionalmente os nossos semelhantes, principalmente os menos favorecidos;
Paga as dívidas com pontualidade e evitar sempre tomar emprestado;
Melhor ter para dar e emprestar do que pedir emprestado.
Nossos avós e pais eram rígidos quanto as Leis da Torá e aas adicionais que, para que não houvesse possibilidade de as esquecer, essas leis estavam gravadas em placas e fixadas em todas as paredes dos quartos, salas, corredores, portões principais e secundários. As nossas vidas, porém, não eram só estudos e canseiras, pois todos nós indistintamente brincávamos todos os dias, quase tanto quanto estudávamos, e também trabalhávamos aprendendo sempre uma arte ou uma profissão, pois meus avós e pais, não permitiam que ficássemos sem uma profissão, mesmo nós fazendo parte da dinastia Rocha/freire. Todos os nossos jogos que praticávamos tendiam a enrijar-nos cada vez mais e a preparar-nos para sobrevivermos as durezas climáticas Nordestina, com as suas temperaturas rigorosamente altas, escaldantes, em pleno verão, ao meio dia a temperatura chega a ser superior aos 45 graus, e no inverno, é às vezes a temperatura chegava aos 6 graus, o que era considerado frio por demais.
Aprendíamos a disparar com arcos e flechas, badoques, baleadeiras, espingardas, o que além de ser imensamente divertido contribuía para nos desenvolver os músculos e as nossas mentes. Usávamos arcos feitos de madeira que nós mesmos colhíamos nas nossas matas, e às vezes fazíamos com madeira local, o que não ficavam bons, mas, dava-se um jeito. Como todos na dinastia Rocha/Freire éramos judeus não praticantes, ou seja, não éramos religiosos, seguíamos os infalíveis ensinamentos da Torá, mas, não tínhamos dogmas, nunca disparávamos sobre alvos vivos que não fossem comestíveis.
Quando treinávamos em casa, os nossos criados ficavam escondidos em determinados lugares, e faziam os alvos subir ou descer por meio de longas cordas e nós dificilmente sabíamos em que direcção os alvos se iam mover, e a maior parte dos rapazes podia atirar mantendo-se de pé nas selas dos cavalos lançados a galope mais a passos rápidos. Mas eu sempre conseguia-me manter montado o tempo suficiente, nas provas de salto, tambor, baliza, porém, não havia cavalo para preocupar-me, isso porque, corríamos tão depressa quanto podíamos e quando a velocidade era suficiente saltávamos apoiando-nos ao chão sem nos causar danos. Eu costumava dizer que os meus irmãos, primos e empregados andavam pouco tempo a cavalo que não tinham força nas pernas, mas eu, que tinha de usar as pernas, montava todos os dias uma média de hora e meia, então eu podia de fato pular do cavalo sem causar dano algum e mim mesmo. Montar a cavalo era, portanto, para todos nós um sistema excelente para atravessar os rios e eu ficava muito satisfeito ao ver aqueles que tentavam seguir-me mergulharem um atrás do outro sem dominar os seus cavalos, e quando atravessávamos todos queriam saber os mistérios pelos quais eu dominava bem o meu cavalo e eles não.
Outro dos nossos passatempos eram as andas, onde nós costumávamos mascarar-nos e brincar de gigantes e às vezes organizávamos combates em andas sem que ninguém soubesse quem era quem, e aquele que caía era considerado vencido, assim, as nossas andas eram feitas por nós mesmos, tínhamos de usar todo o nosso poder de persuasão sobre o fiel senhor do armazém que geralmente era o próprio administrador geral, ou seja, o meu avô paterno, de forma que para podermos obter as peças de madeira de que precisávamos tínhamos que saber como e quando ir buscar. O nosso avô paterno tinha de saber de que forma e uso iríamos utilizar as peças, se apropriados estávamos isentos de interrogatórios, caso contrário, motivo para uns ensinamentos confidenciais, onde, geralmente depois era preciso obter os pedaços em forma de cunha para os suportes dos pés, e como a madeira era muito escassa para ser desperdiçada, tínhamos de esperar a melhor oportunidade junto ao meu avô paterno para fazer o pedido delicadamente e seriamente.
As meninas brincavam com peteca, bambolês, saltar cordas, onde elas mesmas confeccionavam seus brinquedos sob orientação de uma de nossas governantas que também era a guarda-costas das meninas. Assim juntas pegavam pequenos pedaços de madeiras perfuravam numa das bordas e nesses orifícios colocavam as penas dos patos selvagens para confeccionar as petecas, assim, as meninas levantavam as saias o suficiente para as pernas terem liberdade de movimentos e corriam para um alado e para o outro para de maneira segura manter a peteca no ar, sem que a peteca tocasse o chão, se deixassem a peteca cair no chão ficavam desclassificadas, o que, para surpresa nossa, tinha uma menina vigorosa filha de uma de nossas empregadas que era que mais mantinha a peteca no ar às vezes durante uns dez minutos antes de falhar um toque sequer.
Merece lembrar que o maior interesse nosso onde morávamos no Nordeste, era equitação, montarias, domas de cavalos, tratamento de gados, lançamento de papagaios, corridas de saco, futebol de campo e quadra, ténis, era tudo a esse que podemos chamar de diversão, podíamos utilizar cada um de acordo com as estações do ano. Desde tempos remotos, os mais velhos diziam que se lançássemos papagaios nas montanhas as chuvas caía em torrentes, e nesses tempos acreditavam-se que as chuvas ficavam zangadas se não as buscássemos, por isso mesmo, que lançávamos os papagaios principalmente na estação seca, isso porque, no Nordeste temos duas estações seca e chuva. Em épocas de trovoadas, onde caem as chuvas fortes, não se grita nas montanhas porque a percussão ou eco das vozes leva as nuvens saturadas da água a liquefazerem-se demasiadamente depressa e a provocarem chuvas as menos convenientes. Devemos atentar para a grandeza que tínhamos quando soltávamos os nossos papagaios, em que dentro de poucos minutos, papagaios de todos os feitios, tamanhos e cores aparecem sobre os telhados das casas, campo de futebol, estradas, arruamentos, flutuando para cima e para baixo, agitados pelas fortes brisas.
Eu, meus irmãos, primos e funcionários gostávamos imensamente de soltar papagaios e esforçava-me para que o meu fosse um dos primeiros a subir ao céu, isso porque, tínhamos o privilégio de estarmos numa área privilegiada de ventos e com vastos gramados, onde podíamos correr a vontade para um para e para outro. Nós mesmos que construíamos os nossos papagaios, geralmente, com uma armação de bambu coberta de papel manteiga ou seda, o que não nos era difícil obter materiais de boa qualidade, porque era um ponto de honra para cada lar apresentar um papagaio da mais alta classe, habitualmente adornávamos os nossos papagaios com ferozes dragões, águias, aves com asas e caudas.
Tínhamos sempre o costume de travarmos batalhas, nas quais tentávamos derrubar os papagaios dos nossos rivais, onde fazíamos o nosso cerol, em que prendíamos pó de vidro à cauda dos papagaios e cobríamos a linha com cola misturada com o pó de vidro muito bem moído na esperança de cortar as linhas dos outros e capturar os papagaios que caíssem em nosso terreno.
Às vezes, saíamos cautelosamente nas noites de luas claras como o sol e fazíamos subir os nossos papagaios, que mais valiam de consolos para dentro das nossas cabeças e corações, em que, desse modo, os nossos olhos adquiriam brilhos avermelhados e os corpos mostravam as suas cores diferentes contra o fundo do céu nocturno claro com a lua, o que, todos nós gostávamos de assim proceder principalmente quando esperávamos as caravanas de devotos, romeiros, religiosos e vaqueiros que vinham de todos os distritos, comunidades, fazendas.
Não podemos esquecer de que em nossa inocência de crianças, pensávamos que os camponeses, lavradores, vaqueiros eram ignorantes por serem analfabetos, isso porque, vinham desses lugares longínquos e muitos deles desconheciam a existência de invenções modernas como os aviões, veículos, motocicletas, máquinas e equipamentos pesados, indústrias, e julgávamos que os nossos papagaios, e por isso só assustaria os nossos visitantes.
Costumávamos colocar conchas de diferentes tamanhos e formatos em posições estratégicas dentro dos papagaios, de forma que quando o vento soprava sobre os nossos papagaios iam de encontro das conchas e produziam sons queixosos, melancólicos que nós chamávamos de sons fantasmagóricos, isso porque, em nossas inocências de crianças, pensávamos que os sons se assemelhavam assim aos sons dos dragões que expeliam fogo e ululavam na noite, então, nós esperávamos também, assim assustar ainda mais os nossos visitantes que vinham as dezenas em suas caravanas. Confesso que eu mesmo, muita das vezes sentia arrepios de contentamento ao longo da espinha ao imaginar aqueles homens enrolados em suas capas e cobertores, aterrorizados, enquanto os nossos papagaios pairavam por cima das suas cabeças e causando espantos aos cavalos e provocando os latidos ferozes dos seus cachorros sem raça defina.
As minhas brincadeiras com papagaios haviam de me ser muito úteis mais tarde, quando me vi obrigado a voar de avião pela primeira vez, foi quando eu me sentia em um neles, naquele tempo, os nossos papagaios não passavam de brincadeiras, mas de uma brincadeira que me entusiasmava muito, ao ponto de eu não sofrer nenhum medo quando tive que voar de avião pela primeira vez. Tínhamos a sensação de que podíamos construir grandes papagaios como se fossem aparelhos enormes com cerca de dois metros e meio ou três metros de comprimento e largura e com asas proporcionais em ambos os lados, e sabiamente colocávamos em posições de voarem em nosso terreno que muito plano próximo ao rio onde havia uma corrente de ar vertical particularmente forte o que nos favorecia soltar os nossos gigantes objectos voadores.
Montávamos nos nossos cavalos com uma das extremidades da corda atada à volta da cintura e depois galopávamos tão depressa quanto os cavalos podiam galopar, saltava o papagaio que ia subindo, subindo, e mais e mais até ser apanhado pela corrente de ar, quando, então, éramos arrancado da sela com um puxão, pairava a uns dez metros do chão e vínhamos descendo lentamente e para tanto, era uma das maiores e melhores aventuras. Alguns, dos meus irmãos, primos e funcionários se esqueciam de tirar os pés dos estribos, e com os solavancos dos papagaios gigantes eram violentamente puxados pela cintura, o que causava alguns ferimentos pela corda amarrada nas suas cinturas, entretanto eu, que de qualquer maneira eu era considerado por todos como um grande cavaleiro, então deixava-me cair, e era um prazer deixar-me levar pelo ar e voar, voar, voar. Devemos esclarecer que, sendo eu, por temperamento, de natureza insensatamente aventureiro, descobri muito cedo que, se no momento da subida desse, um certo puxão à corda, podia subir ainda mais alto e com outros puxões judiciosos nos momentos propícios eu, podia prolongar ainda mais e mais o meu voo durante mais alguns segundinhos que parecia uma eternidade.
Em uma determinada ocasião eu puxei as cordas com mais entusiasmo, e neste momento o vento cooperou mais ainda, e fui levado para o telhado horizontal da casa de um de nossos camponeses, onde estava armazenado no depósito vizinho todo o nosso combustível para o inverno.
A maioria das casas dos nossos camponeses Nordestinos são casas com telhados planos, circundados por um pequeno parapeito, e aí conservam as carnes e queijos ao sol e ao sereno da noite, apurando e dando maior potencial de conservação. Estas casas, particularmente, eram construídas de tijolos de barro em vez de enchimentos, que é mais usual, e eram poucas as casas que tinham chaminés, a fumaça do fogão a lenha escapava através de um buraco aberto na parede da cozinha ou no telhado por canos improvisados. A minha chegada súbita na ponta de uma corda desmanchou o arranjo do estrume e, ao ser arrastado pelo vento, varri com o meu corpo a maior parte do combustível, que tombou pelo buraco sobre os pobres camponeses.

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